Depoimento bolsista RS – William Horn

Choque de Realidade

Eu estudei minha vida inteira num colégio público. Ganhei a bolsa somente quando já estava no Ensino Médio. Eu sabia que ia ser um choque, mas não imaginava que ia ser tão intenso.

No começo era só uma mudança de ambiente, de pessoas, talvez eu não tenha notado o que estava acontecendo. As primeiras semanas passaram e com elas as primeiras aulas, as primeiras conversas com meus colegas, com meus professores, pude entender minha deficiência em relação a tudo o que estava acontecendo alí. Chegaram as datas das primeiras avaliações, para o desespero de (quase) todos meus colegas, e o meu. “Preciso estudar mais”, pensei, e assim estudei. Preenchi a folha óptica, esperei os resultados ansiosamente, era minha primeira nota nesse novo colégio! O boletim chegou para minha felicidade, apesar do choque, pois havia ido bem.

Segundo trimestre, novos capítulos, novas matérias, novos livros. As coisas se repetiriam, eu acreditava. Eu estava errado, de certa forma. Algumas coisas se repetiram, as páginas viravam, as opções eram marcadas, o lápis gastava. Mas havia alguma coisa mudando, alguma coisa que me fazia ver as coisas de maneira diferente. Passado o processo de adaptação me senti mais a vontade para participar das discuções, despreocupei-me do exagerado com os processos básicos, me senti inserido. De repente o verdadeiro choque, discuções pertinentes a todos os conteúdos pipocavam todos os dias na sala de aula, discutia-se sobre moral, ética, econômia, política. Do papel o conhecimento ia lentamente se inflitrando na realidade, até que o levei para qualquer lugar que eu ia, instigando, questionando a mim mesmo, a tudo o que havia na minha volta, buscando mais informações. Iniciava o terceiro trimestre.

Fui brindado com uma excursão do colégio à Patagônia Chilena. Outra cidade, outra geografia, outra cultura, outra fauna. O terceiro grande choque se aproximava, teve seu ápice quando eu estava observando uma montanha de 1500 metros na sua base, num acampamento. Num lugar tão remoto como esse, tão ancestral, o conhecimento toma outra forma, ele dá significado à paisagem, ele auxilia a sobrevivência, ele não é mais palavras, ele pode ser tocado e pode te alimentar. Eu havia mudado minha concepção sobre pesquisa.

O ciclo estava se fechando, primeiro o conhecimento me devorou, em segundo me libertou e me deixou o observar e o carregar comigo e terceiro me permitiu o devorar. Um ano letivo havia passado, mas havia passado muito mais do que isso, havia passado uma época da minha vida, uma época que me permitiu amadurecer para outras coisas, me tornar mais responsável como indivíduo, mais consciente das minhas atitudes, mais ativo na minha vida pessoal. Isso tudo foi possível por causa das pessoas que acreditaram em mim, por causa das pessoas que investiram em mim e me auxiliaram.

Obrigado Primeira Chance!

Foto tirada por Willian

Foto que eu tirei de um Guanaco (família das Lhamas, Alpacas) comendo à frente de “Las Torres”, no Parque Nacional Torres Del Paine no Chile, próximo ao acampamento.

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